Era uma vez uma garotinha que sempre via o pai com uma câmera fotográfica no pescoço; a primeira foi uma Pentax, depois veio uma Minolta modernosa trazida sob encomenda do Japão, numa época em que não existia Ebay nem Aliexpress. Isso era lá pelos anos 80, até meados dos 90, quando a garotinha se tornou uma adolescente e ganhou, enfim, uma Canon basiquinha que ela levava pra escola e pros passeios da escola e pra cima e pra baixo, tirando fotos dos amigos, do cachorro e de qualquer outra coisa que parecesse minimamente fotografável.
Corta pra 2003. A garotinha, então uma adulta de quase 21 anos, está no segundo ano da faculdade de Comunicação Social com ênfase em Rádio e TV. Na grade curricular, uma surpresa: uma disciplina chamada Fotografia, com direito a aulas no laboratório pra aprender a revelar filmes e ampliar as fotos feitas nas saídas fotográficas com a câmera emprestada da universidade. Aí aconteceu o óbvio: sabe quando dizem aquelas coisas estúpidas tipo "fulano tem tendência a engordar porque a mãe dele é gordinha, o pai também, sabe como é, né?" Então, já estava no meu DNA essa predisposição a gostar de instantes congelados e eternizados em frames fotográficos.
A primeira vez que me vi na rua pra fotografar foi em Agosto de 2003. A câmera era uma Nikon emprestada pela Universidade São Judas Tadeu, onde eu estudava na época. Dentro dela, um filme preto e branco cedido gentilmente pela professora Dora (com quem infelizmente perdi contato). O lugar escolhido pra clicar foi o centro da cidade. E uma das minhas primeiras fotos foi essa:
O que me encanta nessa foto nem é tanto a imagem em si, embora ela até que seja bem pensada pra um dos primeiros cliques da vida: a placa que proíbe carros, o carro parado ao lado dela, o homem parado ao fundo, os terços bem dividinhos (a regra dos terços fica pra um próximo post). O que me faz gostar dessa foto é o fato de todo o processo ter passado pelas minhas mãos. Eu pensei na imagem, eu enquadrei, eu cliquei, eu revelei o filme, eu ampliei a foto, eu a trouxe pra casa. Ou seja, da ideia ao produto final, tudo foi feito por mim.
Daí em diante, não parei mais. Fiz outras fotos em filme ainda, mas revelados e ampliados por outros, em outros laboratórios. Naquela época o suporte digital ainda engatinhava.
Hoje em dia é difícil encontrar quem ainda fotografe com filme. Pra mim, existe um certo romantismo nisso: comprar o filme, pensar bem antes de clicar (afinal, não dá pra ver o resultado instantaneamente num visor), revelar, ampliar, ver a foto surgindo no papel. Gosto do digital, acho que facilita muito, além de ser mais barato. Mas o filme pressupõe um outro tipo de relação com a fotografia, mais devagar, menos imediatista, mais pensada, cheia de expectativa. Será que a foto ficou boa?
A Pentax, aquela que citei lá no começo do texto, está numa prateleira, no meu quarto. Precisa de conserto, pois não está disparando, ou seja, não fotografa. Já fiz um orçamento e estou só esperando uma graninha sobrar pra arrumar a câmera que fez as fotos da minha infância. O plano é comprar alguns filmes e depois fazer um curso de revelação e ampliação, pra acompanhar todo o processo de novo, dessa vez com uma velha e conhecida companheira. Mais romântico que isso, impossível.


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