domingo, 22 de novembro de 2015

Fotografias Falam



Em 1972, a fotografia de uma garotinha nua, chorando enquanto corria por uma estrada depois de um ataque de napalm, abriu os olhos do mundo para os horrores da Guerra do Vietnam. Embora a maior parte do seu corpo tenha sido queimada, ela sobreviveu, se formou médica e criou uma fundação de apoio a outras vítimas de guerra. O fotógrafo Nick Ut ganhou um Prêmio Pulitzer por esse trabalho, e Phan Thi Kim Phuc ainda é conhecida como "a garotinha da foto icônica".

Vinte e um anos depois, outra criança, outra foto. Uma criança sem nome em um país africano, o Sudão. Uma garotinha morrendo de fome, observada por um abutre que talvez estivesse apenas esperando que ela morresse. A fotografia abriu os olhos do mundo para as guerras e a fome na África em 1993; no ano seguinte, o fotógrafo Kevin Carter ganhou um Prêmio Pulitzer, mas não antes de ser julgado, no entanto, pelos milhões de pessoas que viram o registro desolador feito por ele. Todos queriam saber o que havia acontecido com a garotinha e, acima de tudo, a pergunta para a qual todos queriam uma resposta era: por que ele não ajudou a menina em vez de tirar a foto? A fotografia, a criança, o prêmio, e essa espécie de júri popular ao qual o fotógrafo foi submetido o assombraram demais. Carter condenou a si mesmo à pena de morte, e cometeu suicídio em 1994.



Outros vinte e um anos depois, somos mais uma vez atingidos por uma fotografia de uma criança. Por que aquele garotinho está deitado na praia? Ele está dormindo? Não, garotinhos não dormem assim, com suas cabecinhas na água. Mas então, por que?, nós nos perguntamos. O garotinho tem um nome, é Aylan Kurdi. Ele é mais uma vítima das atrocidades que acontecem entre a Síria e a Europa. Aylan não foi morto por balas ou bombas, ele estava tentando fugir delas. Aylan era um refugiado; ele morreu afogado a caminho da Grécia e foi encontrado em uma praia da Turquia, na mesma posição em que muitos garotinhos da sua idade dormem, sãos e salvos nos seus berços em casa.


Quarenta e três anos separam Phan Thi Kim Phuc - a garota em chamas - de Aylan, o garoto na praia, com a menina sudanesa entre eles. Todas essas fotografias tiveram impacto não apenas na sociedade como um todo, mas em cada pessoa que as viu, mesmo que tenha sido só de relance. Nos sentimos abalados e desconfortáveis quando as vemos. Queremos saber quem fez as fotos, quem eram ou quem são aquelas crianças, o que aconteceu com elas antes e depois daquele momento congelado no tempo. Cada foto tem sua própria história, e nestas as histórias são devastadoramente tristes.

Nós nos identificamos com essas fotos. Todos nós fomos crianças um dia; no entanto, a maioria de nós cresceu longe dos horrores das guerras e da fome. Nós pudemos ser crianças, não tivemos nossa infância abruptamente interrompida pelo napalm ou por uma fuga num barquinho no meio da noite que nos fizesse deixar pra traz a vida como a conhecíamos. Nós também somos mães e pais e ver uma criança - qualquer criança - em situações como essa é extremamente dolorido.

Fotografias são mais que apenas imagens. Elas falam, e nos contam dos horrores do mundo dos quais queremos manter distância. Elas colocam diante dos nossos olhos o lado horrível da humanidade que queremos ignorar. Nós as compartilhamos, nós sofremos, ficamos indignados com elas. Até que as esquecemos. Até que somos atingidos por outra fotografia, por outras Phan Thi Kims ou outros Aylans. Por outras garotinhas sem nome. Por outros horrores causados pelo homem em nome das guerras e do dinheiro.



domingo, 1 de novembro de 2015

Sobre Fotos e Viagens

"Viajar é assim; é viciante. A fotografia também. 
Combine os dois e você tem uma vida inteira de 
inquietação em que a próxima viagem é 
planejada antes mesmo que a que você está 
fazendo termine, se o tempo e 
o dinheiro permitirem."

Richard I'Anson


Li essa frase anos atrás em um livro sobre fotografia da Lonely Planet e me identifiquei no ato. Viajar e fotografar são de fato coisas completamente viciantes, tanto que eu não consigo separar uma da outra. Enquanto planejo uma viagem, eu juro, já vou pensando nas fotos que quero fazer, qual é o melhor horário do dia pra visitar cada lugar por motivos de luz/menos gente passando na frente da câmera, quais são os melhores ângulos e por aí vai. 

Acontece que existem diferentes experiências fotográficas, digamos assim, durante uma viagem. Existe o registro daquilo que você está vendo e vivendo em um determinado lugar e existe o registro que mostra a sua passagem por aquele lugar. Hoje, o acesso a equipamentos fotográficos é infinitamente mais fácil que anos atrás; quase todos os aparelhos celulares, por exemplo, têm uma câmera fotográfica embutida. Junte isso às redes sociais e pronto! Mostrar que você esteve em Paris se torna mais importante do que tudo que você viu e viveu por lá. É o que eu tenho visto acontecer por aí, infelizmente.

O fotógrafo brasileiro Fabio Seixo levantou uma reflexão sobre esse assunto tempos atrás, com seu projeto Photoland. Seixo fez diversas imagens de pessoas fotografando ao redor do mundo na tentativa de mostrar que o ato de fotografar vem se tornando mais importante que a vivência. Alguns dos cliques dele você pode ver aqui.

De fato, nas minhas andanças por aí - dentro e fora de São Paulo, diga-se de passagem - tenho percebido cada vez mais que muita gente hoje em dia tem uma necessidade imensa de "marcar território". É aquela coisa: você vai ao Louvre e em vez de ver a Mona Lisa, fotografa a Mona Lisa. Vai a um show e, na hora que a banda toca sua música favorita, você saca o celular pra filmar, e em vez de curtir a apresentação ali, ao vivo, você fica olhando pro retangulozinho que é a tela do aparelho pra ver se está filmando mesmo. Fotos e vídeos vão direto pras redes sociais. Quantos likes será que a selfie com a Mona Lisa merece?

Lembro de uma coisa que aconteceu no ano passado quando estava em Portugal. Enquanto esperava na fila para entrar na Torre de Belém, ouvi a conversa de dois casais brasileiros. Um dos maridos dizia que foi "naquela BH de Nova York" e pediu "a câmera mais cara da loja". E aí estava lá, fazendo fotos do lugar sem mal saber segurar a tal câmera caríssima; fotos da esposa, dele e da esposa, do casal que tinham acabado de conhecer na fila. Minutos antes, esse mesmo cara havia dito que não sabia porque estava naquele lugar, porque "aquela velharia" (sim, essas foram as palavras dele, eu juro.) era importante. Ou seja, ele não queria estar ali, não sabia porque estava ali, mas as fotos, ah!, essas com certeza foram pro Facebook e pro Instagram, pra mostrar pros amigos a passagem por Lisboa.

Calma lá! Não estou querendo dizer aqui que a gente não deve de jeito nenhum fazer selfies e marcar a nossa visita a algum lugar. Isso não é errado, de forma alguma! Eu mesma já fiz isso muitas vezes. Na minha última viagem de férias até criei a hashtag #allbymyselfie - um trocadilho com o nome da música All By Myself, já que eu estava viajando sozinha - para os meus autorretratos compartilhados nas redes sociais. Acho que esse tipo de registro é uma parte gostosa da viagem, e é importante, sim. O problema é quando ele passa a ser mais importante que a viagem em si.

#allbymyselfie no Porto
Ainda nessa viagem do ano passado, nos dias em que estive em Barcelona tive a oportunidade de ver algo com que eu sonhava desde pequena (pra ser mais exata, desde a abertura dos Jogos Olímpicos de 1992 - sim, eu lembro, e se você não lembra é só clicar aqui): os castellers, que fazem parte de uma tradição catalã chamada castells, que são basicamente torres humanas. Lembro quando a dona do apê disse que os castellers estariam na Festa Major del Raval. Meu coração veio na boca! A primeira coisa que eu pensei foi que finalmente eu realizaria meu sonho de ver aquilo ao vivo e a cores. A segunda foi que eu conseguiria fotografar aquilo. Pois é.


No dia seguinte, lá estava eu na Rambla del Raval, câmera a postos, coração a mil e dedinho nervoso pra começar a clicar logo. Vi os castellers chegando e se preparando, me arrepiei até o último fio de cabelo quando começaram a tocar o Toc de Castells. Sim, eu fiz um videozinho no celular. Sim, eu fotografei muito. Mas não o tempo todo. Guardei a câmera na bolsa e curti o momento, torres subindo e descendo, crianças pequenas e corajosas indo ao ponto mais alto delas, gente se ajudando nessa tradição que é um exemplo de trabalho coletivo. Ao meu redor, muita gente acompanhado tudo, o tempo todo, por telas e visores.


Fiz muitas fotos legais nesse dia. São um registro do que eu vi que não só vão me fazer lembrar daquele momento pra sempre, mas que também podem mostrar pra quem não estava lá o que foi esse momento. O que vi. Agora, o que eu vivi é só meu. A emoção de estar lá, o arrepio, o calor, a sensação... A experiência é só minha. E, sem dúvida, ela é infinitamente maior e melhor que as fotos.

Fotografar em viagem é uma delícia. Ver as fotos depois é mais gostoso ainda. Só que a gente não pode deixar que isso se torne mais importante que a viagem em si. Às vezes é bom largar a câmera e o celular e simplesmente curtir o momento, pois existem muitas coisas que esses aparelhos nunca vão conseguir registrar. Essa memória física, congelada, é muito legal. Compartilhar com os amigos também. Mas as histórias vividas em uma viagem costumam ser bem mais interessantes. As fotos são apenas parte de algo muito maior, que é a experiência de conhecer outros lugares, pessoas, culturas. Afinal, cá entre nós, se for só pra fazer selfie com a Torre Eiffel de fundo, não há nada que um Photoshop não resolva. Pra que cruzar o oceano? rs