Em 1972, a fotografia de uma garotinha nua, chorando enquanto corria por uma estrada depois de um ataque de napalm, abriu os olhos do mundo para os horrores da Guerra do Vietnam. Embora a maior parte do seu corpo tenha sido queimada, ela sobreviveu, se formou médica e criou uma fundação de apoio a outras vítimas de guerra. O fotógrafo Nick Ut ganhou um Prêmio Pulitzer por esse trabalho, e Phan Thi Kim Phuc ainda é conhecida como "a garotinha da foto icônica".
Vinte e um anos depois, outra criança, outra foto. Uma criança sem nome em um país africano, o Sudão. Uma garotinha morrendo de fome, observada por um abutre que talvez estivesse apenas esperando que ela morresse. A fotografia abriu os olhos do mundo para as guerras e a fome na África em 1993; no ano seguinte, o fotógrafo Kevin Carter ganhou um Prêmio Pulitzer, mas não antes de ser julgado, no entanto, pelos milhões de pessoas que viram o registro desolador feito por ele. Todos queriam saber o que havia acontecido com a garotinha e, acima de tudo, a pergunta para a qual todos queriam uma resposta era: por que ele não ajudou a menina em vez de tirar a foto? A fotografia, a criança, o prêmio, e essa espécie de júri popular ao qual o fotógrafo foi submetido o assombraram demais. Carter condenou a si mesmo à pena de morte, e cometeu suicídio em 1994.
Outros vinte e um anos depois, somos mais uma vez atingidos por uma fotografia de uma criança. Por que aquele garotinho está deitado na praia? Ele está dormindo? Não, garotinhos não dormem assim, com suas cabecinhas na água. Mas então, por que?, nós nos perguntamos. O garotinho tem um nome, é Aylan Kurdi. Ele é mais uma vítima das atrocidades que acontecem entre a Síria e a Europa. Aylan não foi morto por balas ou bombas, ele estava tentando fugir delas. Aylan era um refugiado; ele morreu afogado a caminho da Grécia e foi encontrado em uma praia da Turquia, na mesma posição em que muitos garotinhos da sua idade dormem, sãos e salvos nos seus berços em casa.
Quarenta e três anos separam Phan Thi Kim Phuc - a garota em chamas - de Aylan, o garoto na praia, com a menina sudanesa entre eles. Todas essas fotografias tiveram impacto não apenas na sociedade como um todo, mas em cada pessoa que as viu, mesmo que tenha sido só de relance. Nos sentimos abalados e desconfortáveis quando as vemos. Queremos saber quem fez as fotos, quem eram ou quem são aquelas crianças, o que aconteceu com elas antes e depois daquele momento congelado no tempo. Cada foto tem sua própria história, e nestas as histórias são devastadoramente tristes.
Nós nos identificamos com essas fotos. Todos nós fomos crianças um dia; no entanto, a maioria de nós cresceu longe dos horrores das guerras e da fome. Nós pudemos ser crianças, não tivemos nossa infância abruptamente interrompida pelo napalm ou por uma fuga num barquinho no meio da noite que nos fizesse deixar pra traz a vida como a conhecíamos. Nós também somos mães e pais e ver uma criança - qualquer criança - em situações como essa é extremamente dolorido.
Fotografias são mais que apenas imagens. Elas falam, e nos contam dos horrores do mundo dos quais queremos manter distância. Elas colocam diante dos nossos olhos o lado horrível da humanidade que queremos ignorar. Nós as compartilhamos, nós sofremos, ficamos indignados com elas. Até que as esquecemos. Até que somos atingidos por outra fotografia, por outras Phan Thi Kims ou outros Aylans. Por outras garotinhas sem nome. Por outros horrores causados pelo homem em nome das guerras e do dinheiro.






