domingo, 20 de novembro de 2016

A estátua, a selfie e a confusão

Começo esse post com um mea culpa: eu já tirei uma selfie com uma estátua.

Pra quem não reconheceu, esse é o Fernando Pessoa
Pior: eu já tirei mais de uma selfie com uma estátua.

Pra quem não reconheceu esse aí também, é o Dom Quixote.
Como você já deve ter percebido, volto ao blog depois de um hiato de meses sem aparecer por aqui pra escrever motivada pela confusão envolvendo uma estátua de 300 anos (ou menos, a idade varia de acordo com a fonte) e um turista brasileiro. Ao tentar fazer uma selfie, o rapaz derrubou uma obra de arte do século XVIII no Museu de Arte Antiga, em Lisboa.

Quando o assunto surgiu nas rodas de conversa por aí, o primeiro comentário que surgiu, infelizmente, foi o clichê "Ah, mas tinha que ser brasileiro mesmo!". Eu acho curioso esse negócio de brasileiro não gostar de turista brasileiro, sendo que quando viajamos somos todos o quê? Turistas brasileiros. Pois é. Nas minhas poucas andanças por aí, eu realmente já vi muitos brasileiros se comportando muito mal em museus e lugares históricos (teve uma família que conseguiu dar uma boa estragada na minha visita ao Palácio Nacional de Sintra). Acontece que já vi gente de outros países causando bastante também, principalmente dos Estados Unidos e, pasmem, do Japão. Acredite se quiser, vi um grupo de japoneses quase ser expulso do Palácio Real de Madrid porque insistiam em tocar nas cortinas e em outros objetos, mesmo depois de uma funcionária do local explicar e pedir mais de uma vez para que não tocassem em nada. Acho sinceramente que nesse caso da estátua, o problema definitivamente não foi a nacionalidade do cara.

Num dos meus primeiros posts aqui, escrevi sobre fotografia de viagens, sobre como as fotos vêm se tornando muitas vezes mais importantes que a viagem em si. Essa reflexão motivou, inclusive, meu TCC na faculdade de Letras (um TCC de Letras sobre fotografia? Sim, você não leu errado. Prometo escrever mais sobre ele em outro post). Nesse trabalho, usei uma citação da Lúcia Santaella que diz o seguinte: "Fotografar tornou-se um ato indiscriminado, pois errar, tanto no gesto quanto no alvo, não traz consequências. Quando o gesto se torna mínimo, o alvo pode ser qualquer coisa e o resultado é descartável sem quaisquer prejuízos. Além de indiscriminado, o gesto torna-se também inconsequente." Santaella aí só disse verdades.

Não dá pra negar que a democratização da fotografia hoje caminha a passos largos. Até o celular mais comum tem lá uma camerazinha, e já não dependemos mais da revelação e ampliação pra compartilhar as imagens que fizemos. Lembro que, no passado, quando alguém viajava, ver as fotos de viagem era um evento: você ia à casa da pessoa, ou ela ia até a sua casa, e eram horas folheando álbuns e conversando sobre os lugares. Hoje em dia, dá pra seguir em tempo real a viagem dos amigos pelas redes sociais. Sinceramente? Preferia como era no passado.

Eu não sei qual é o histórico desse cara que derrubou a estátua, por isso vou tentar não julgar. Não sei se ele queria tirar uma selfie com a tal estátua porque gosta muito de arte, ou se foi só pra fazer graça. De uma forma ou de outra, ele queria mostrar pra alguém - pra "alguéns", muito provavelmente - que passou por aquele museu e viu aquela estátua. Mais ou menos como a grande maioria de pessoas que vai ao Louvre e fotografa a Mona Lisa em vez de observar a Mona Lisa.

Foto do projeto Photoland, de Fábio Seixo
Acho também que o museu vacilou ao deixar uma obra tão importante exposta de forma tão vulnerável. Ela foi derrubada por um turista que queria fazer uma selfie, mas podia ter sido uma criança, podia ter sido um idoso, podia ter sido alguém que tropeçou, alguém que passou mal. Ou seja, não existe ninguém certo nessa história. Pelo menos não na minha opinião. Turista e museu erraram feio, erraram rude.

Estátua de São Miguel Arcanjo depois do acidente. Foto do jornal Extra.

Eu sou meio rata de museu, frequento muito e, quando possível, adoro fotografar esse tipo de lugar. Acontece que existe todo um protocolo - às vezes explícito, às vezes não - para fotografar museus. Muitos sequer permitem fotografar; aqueles que permitem, proíbem o uso de flash, já que o excesso de luminosidade emitida pelo equipamento pode deteriorar as obras. As demais regras, acredito, são de senso comum: não tocar nas obras, não ultrapassar as linhas de segurança, não atrapalhar a observação e a circulação dos demais visitantes enquanto fotografa. O mais importante pra mim, no entanto, é não deixar que as fotos se tornem mais importantes que a experiência de conhecer o museu.

Lembro da primeira vez que fui ao Reina Sofía, em Madrid. Tinha pouco tempo pra andar por lá, e fui direto ver a Guernica de Pablo Picasso. Depois do impacto inicial ao ver aquela obra imensa e tão chocante, o que foi que eu fiz? Saquei a câmera da bolsa, mirei e... Apareceu uma funcionária dizendo que era proibido fotografar. Muito a contragosto, respeitei a orientação da moça, mas fiquei brava por não poder fazer uma foto daquele que foi um dos pontos mais altos da minha viagem à Europa. Hoje em dia, me pergunto: eu queria uma foto da Guernica pra quê? É só jogar no google que o quadro está lá! Talvez naquela época eu quisesse ter uma espécie de memória física daquele momento, algo que eu pudesse compartilhar com alguém. No entanto, mesmo sem a foto, a lembrança daquele primeiro contato com o quadro que retrata os horrores da Guerra Civil Espanhola continua comigo, e vai continuar, pra sempre. Acabei fazendo outras fotos por lá, em lugares onde fotografar era permitido, que sem dúvida são muito melhores que qualquer foto que eu fizesse de qualquer quadro ou escultura exposta ali. Quanto à Guernica, bastou comprar um cartão postal na gift shop do museu e saí de lá com a reprodução do quadro que eu tanto queria.

Um dos corredores do Centro de Arte Reina Sofía, em Madrid. 
Por mais que eu ame fotografar, por mais que isso seja uma parte tão importante da minha vida, vou sempre bater na mesma tecla: não podemos deixar que as fotografias se tornem mais importantes ou maiores que as experiências que vivemos. Isso vale pro museu, pra viagem, pra festa dos amigos, pro casamento da prima. É bom ter o registro de tudo isso? É, sim. É ótimo. Mas a partir do momento em que a necessidade de registrar se torna um problema, será que ainda vale a pena?

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Fotografia + Literatura

Não foi pelos guias ou revistas de viagens que cheguei até a vila portuguesa de Sintra. Quem me levou até lá foi Eça de Queiroz, um dos meus escritores favoritos. Foi ele quem escreveu Os Maias, livro do qual eu gosto tanto que virou até tatuagem no meu braço direito. Por isso, hoje quem vai falar de Sintra não sou eu. As fotos são minhas, mas as palavras são dele.



"O quê! O maestro não conhecia Sintra?... Então era necessário ficarem lá,
fazer as peregrinações clássicas, subir à Pena, ir beber água à Fonte dos
Amores, barquejar na várzea..."
































"Chegavam às primeiras casas de Sintra; havia já verduras na estrada, e batia-lhes no rosto o primeiro sopro forte e fresco da serra."





"E a passo, o break foi penetrando sob as árvores do Ramalhão. Com a paz
das grandes sombras, envolvia-os pouco a pouco uma lenta e embaladora
sussurração de ramagens, e como o difuso e vago murmúrio
de águas correntes."


"Os muros estavam cobertos de heras e de musgos; através da folhagem,
faiscavam longas flechas de sol. Um ar de sutil e aveludado circulava,
recendendo a verduras novas; aqui e além, nos ramos mais sombrios,
pássaros chilreavam de leve; e naquele simples bocado de estrada.
todo salpicado de manchas do sol, sentia-se já, sem ver, a solenidade
dos espessos arvoredos, a frescura distante das nascentes vivas,
a tristeza que cai das penedias e o repouso fidalgo das 
quintas de verão..."



"Cruges não respondeu, mudo, enlevado, recebendo como uma impressão
religiosa de todo aquele esplendor sombrio de arvoredo, dos altos
fragosos da serra entrevistos um instante lá em cima nas nuvens,
desse aroma que ele sorvia deliciosamente, e do sussurro doce
de águas descendo para os vales..."


"E foi o que mais lhe agradou - este maciço e silencioso palácio sem florões
e sem torres, patriarcalmente assentado entre o casario da vila, com as suas
belas janelas manuelinas que lhe fazem um nobre semblante real, o vale
aos pés, frondoso e fresco, e no alto as duas chaminés colossais, disformes,
resumindo tudo, como se essa residência fosse toda ela uma cozinha
talhada às proporções de uma gula de rei que cada dia come todo um reino..."




























"De vez em quando aparecia um bocado da serra, com a sua muralha de ameias correndo sobre as penedias, ou via-se o castelo da Pena, solitário lá no alto. E por toda a parte, o luminoso ar de de abril punha a doçura de seu veludo."



"- De resto, filho - continuou Alencar -, tudo em Sintra é divino. 
Não há cantinho que não seja um poema... Olha, ali tens tu, 
por exemplo, aquela linda florzinha azul... - e, ternamente, apanhou-a. "


"- Com mil raios! - exclamou de repente o Cruges, saltando de dentro da manta,
com um berro que emudeceu o poeta, fez voltar Carlos na almofada,
assustou o trintanário.
O break parara; todos o olhavam suspensos; e no vasto silêncio
de charneca, sob a paz do luar, Cruges, sucumbido, exclamou:
- Esqueceram-me as queijadas!"





(Todos os trechos que servem de legenda para as fotos desse post foram retirados do Capítulo VIII do livro Os Maias, de Eça de Queiroz. Recomendo a leitura, não só pelo excelente enredo criado pelo autor, mas pelo retrato que ele faz da sociedade portuguesa da época. Pra quem tem preguiça de ler, a Rede Globo fez uma minissérie maravilhosa sobre o livro, muito fiel ao texto. Vale a pena assistir.)





terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Alfama


(Este é um post com trilha sonora. Para ouvir, clique aqui.)

Já falei em posts anteriores que estive duas vezes em Lisboa? Não lembro. Pois bem, a primeira foi em 2010, a segunda em 2014 e a terceira eu espero que não demore a chegar. Sabe amor à primeira vista? É isso. Eu me apaixonei por Lisboa ainda dentro do avião, vendo pela janelinha o Tejo, a Torre de Belém, o Mosteiro dos Jerónimos, o Aqueduto das Águas Livres... Pra sedimentar de vez esse amor no meu coração, no dia da minha chegada, logo que desci do táxi, entrei na Rua Augusta (pois é, lá também tem uma, mas é bem diferente da nossa aqui), dei de cara com o Arco Triunfal e - eu juro - alguém começou a tocar um fado num acordeon. Eu chorei, eu passei reto pelo hostel onde ia ficar, eu esqueci do frio, eu esqueci de tudo. Eu me apaixonei ali, naquele instante, e posso afirmar que é amor-verdadeiro-amor-eterno até hoje, quase seis anos depois daquele 20 de janeiro de 2010.

Lisboa vista do alto do Mosteiro de São Vicente de Fora
Dito isso, não vou me alongar muito aqui sobre meu sentimento por essa cidade que considero meu lugar no mundo e onde ainda quero morar um dia. Já escrevi para o site Iza Pelo Mundo sobre 10 motivos para amar Lisboa, mas te garanto que consigo achar muitos mais. Faz tempo que tenho pensado em um post sobre esse assunto, mas nem sempre é fácil escrever sobre algo que a gente ama (pelo menos pra mim, não é). Assim, em vez de escrever um texto só falando sobre a cidade toda, resolvi dar uma de Jack, o estripador (vocês perdoam a piadinha infame e clichê?) e ir por partes. Talvez assim seja mais fácil.

Mapa em azulejos com sugestões de roteiros por Alfama
Resolvi começar por Alfama por ser um dos bairros mais representativos de Lisboa, e também o mais antigo de todos, tendo sobrevivido ao terremoto de 1755 que devastou a cidade. É um bairro pitoresco, com ruas e vielas estreitas, muito sobe e desce, fado, azulejos, roupas estendidas do lado de fora das janelas e balcões, enfim, "é uma casa portuguesa, com certeza". Ainda tem um castelo e um mosteiro. Tudo isso na colina mais alta da capital portuguesa, o que ainda faz com que existam por ali vários miradouros - que aqui nós chamamos de mirantes - de onde é possível admirar o rio Tejo, os telhadinhos vermelhos e tudo mais de lindo que Lisboa tem pra oferecer.

"É, com certeza, uma casa portuguesa"

Na saída do Panteão Nacional

Na primeira vez que estive por lá, em janeiro de 2010, era inverno. Fiquei só 4 dias na cidade, e justamente no dia que fui ao Castelo de São Jorge pra depois descer a pé pelo bairro, choveu muito. Choveu o dia todo. Tentei ir no dia seguinte, mas a chuva não deu trégua. Acabou não rolando e ficou na minha listinha de coisas pra fazer quando voltasse a Portugal.

Já em julho de 2014, a história foi outra: verão, muito sol, muito calor, céu azul e uma semana inteira pra curtir Lisboa. Fui duas vezes a Alfama. Na primeira, fiquei um dia inteiro por lá, passando pela Feira da Ladra, Panteão Nacional, Mosteiro de São Vicente de Fora (lugar incrível e assunto pra outro post), Castelo de São Jorge e Largo das Portas do Sol, a partir de onde comecei a andar sem rumo até chegar à Baixa. 

Azulejos na Feira da Ladra







Cantinhos escondidos do bairro

Na segunda vez, tentei seguir um roteiro do site Lisbon Lux, mas confesso que foi muito difícil. O bairro tem muitas ruas, vielas, travessas, escadinhas e escadarias, às vezes com o mesmo nome. É fácil se perder por lá, e, pra ser sincera, acho que o melhor que pode acontecer é isso mesmo. Alfama é um lugar perfeito pra perder o rumo, andar a esmo, só observando e aproveitando cada surpresa que surge no final de uma viela ou ao virar uma esquina. Alfama é onde a gente se perde e encontra uma beleza sem fim.


























Cheira bem, cheira à Lisboa...

Alfama vista do Largo das Portas do Sol

Termino esse post com o coração cheio de saudade da minha cidade da favorita e das minhas andanças sem rumo por seu bairro mais icônico. Para quem pretende visitar Lisboa um dia, deixo aqui a dica: reserve um dia, ou pelo menos uma parte de um dia, pra se perder pelas vielas d'Alfama. Guarde o mapa na mochila e o relógio também, deixe a curiosidade ser seu guia. Às vezes é bom deixar os planos e os roteiros de lado e simplesmente viver o lugar, e Alfama, sem dúvida, é o espaço perfeito pra essa despreocupação. Caminhe devagar, olhos e ouvidos atentos, e tenho certeza que você vai encontrar surpresas lindas quando menos esperar. Foi assim que aconteceu comigo.


Ruas, vielas, becos, travessas...


Roupas e bandeiras nas janelas (era época de Copa)
São Vicente, padroeiro da cidade, fica por lá


























P.S.: Quer ver um pouquinho mais d'Alfama pelos olhos de uma outra pessoa? Que tal o diretor Wim Wenders? É dele o filme Lisbon Story (que aqui no Brasil tem o nome O Céu de Lisboa), que tem o bairro como um de seus cenários principais. Deixo aqui minha cena favorita, que não só mostra um pouquinho da beleza da cidade, mas também é de uma delicadeza que só os grandes gênios do cinema são capazes. O clipe do link láááá do começo do post tem imagens desse filme, que tem trilha sonora do grupo português Madredeus.

sábado, 26 de dezembro de 2015

"Penetra surdamente no reino das palavras..."

Eu gosto de museus. Gosto da arte neles presente, gosto da arquitetura dos prédios que recebem o nome de museu, gosto do cheiro, gosto do silêncio que reina em muitos deles, gosto do ambiente, gosto de me envolver na cultura e na história que existem nesses lugares.

Eu gosto também da língua portuguesa. Gosto dos sons, das palavras, da maneira como elas se interligam, dos sotaques daqui e d'além mar. Gosto da literatura em língua portuguesa, dos conflitos humanos traduzidos em palavras nessa língua que tenho orgulho de chamar de minha.

Assim, como eu poderia não gostar de um museu todinho dedicado a língua portuguesa?

Crianças correndo na Grande Galeria

O Museu da Língua Portuguesa, localizado dentro do icônico prédio da Estação da Luz, em São Paulo, foi inaugurado em março de 2006. Alguns meses depois, lá estava eu me enveredando pelas veredas de Guimarães Rosa na primeira das muitas exposições temporárias que passaram por lá. Nos quase 10 anos de vida desse espaço cultural, voltei incontáveis vezes para visitas às mostras, para rever o acervo permanente e, claro, para fotografar.

Grande Sertão: Veredas, a primeira exposição

Ao longo desse tempo, fui estabelecendo uma relação afetiva com esse espaço. Moro perto da Luz, e o Museu da Língua Portuguesa acabou me levando também para a Pinacoteca e para o Parque da Luz. Passei, e ainda passo muitos domingos por ali, fotografando ou só passeando mesmo.

Lembro de cada uma das exposições que vi por lá. Algumas foram mais marcantes que outras, claro. Visitei a primeira, sobre o livro Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, duas vezes e, se pudesse, voltaria no tempo agora para uma terceira visita, que certamente seria aproveitada de outra forma depois de quatro semestres de estudo de Literatura Brasileira, sendo um deles sobre esse autor. Lembro que estava começando a me aventurar na fotografia lá por 2006 e fiz algumas imagens da exposição; hoje com certeza faria muitas mais.

Clarice Lispector

Lembro das gavetas de Clarice Lispector, dos capítulos de Machado de Assis, dos poemas de Fernando Pessoa escritos virtualmente na areia. Da exposição Menas, de 2010, uma das fotos que fiz virou capa de livro didático (confira aqui). Na exposição sobre Cazuza, fui a primeira a entrar no Museu num domingo qualquer, e durante um bom tempo aquele espaço foi só meu. Brinquei muitas vezes no Beco das Palavras, e na Praça da Língua sempre repetia baixinho alguns dos poemas declamados ali que eu sei de cor. Na minha última visita, li poemas de autores contemporâneos pouco conhecidos perfeitos para o momento pelo qual estava passando na época. Cada uma dessas exposições me tocou o coração de um jeito diferente.

O telefone amarelo do Cazuza

Um dos aspectos mais interessantes do Museu da Língua Portuguesa pra mim é, sem dúvida, a interatividade. Mesmo nas exposições temporárias, essa sempre foi uma característica presente e marcante desse espaço. Já estive em alguns dos museus mais famosos do mundo, como o British Museum, o Louvre e o Prado, e em nenhum deles existe essa possibilidade de interação com o acervo. Acho que isso, além do fato de ser o único museu dedicado a uma língua, fez dele um espaço tão especial e singular. Talvez seja essa interatividade um dos grandes responsáveis pelos quase 3 milhões de visitantes que passaram por lá, já que vivemos em um país onde a maioria da população não gosta de língua portuguesa e não se interessa por literatura. Olha só: em 9 anos, essa gente toda teve a oportunidade de conhecer mais sobre a nossa língua, e, por consequência, sobre a nossa cultura.

Poema de Fernando Pessoa "escrito" na areia

Por tudo isso, foi impossível conter as lágrimas ao ver o Museu da Língua Portuguesa tomado por um incêndio, totalmente destruído. Mais do que um instrumento de fundamental importância num país tão carente de espaços culturais, o Museu da Língua Portuguesa era um lugar meu, do meu coração. Foram quase 10 anos de uma convivência próxima e estreita. É um lugar que faz parte das minhas escolhas profissionais, da minha história, da minha vida, enfim.

Crianças brincando de fazer sombras na Grande Galeria
Nessa época do ano em que tanta gente faz pedidos, deixo aqui o meu desejo: que o Museu da Língua Portuguesa, tão querido, seja restaurado e volte logo a funcionar, ainda mais bonito e mais interessante. Enquanto isso não acontece, revejo as fotos com o coração cheio de saudade.


domingo, 22 de novembro de 2015

Fotografias Falam



Em 1972, a fotografia de uma garotinha nua, chorando enquanto corria por uma estrada depois de um ataque de napalm, abriu os olhos do mundo para os horrores da Guerra do Vietnam. Embora a maior parte do seu corpo tenha sido queimada, ela sobreviveu, se formou médica e criou uma fundação de apoio a outras vítimas de guerra. O fotógrafo Nick Ut ganhou um Prêmio Pulitzer por esse trabalho, e Phan Thi Kim Phuc ainda é conhecida como "a garotinha da foto icônica".

Vinte e um anos depois, outra criança, outra foto. Uma criança sem nome em um país africano, o Sudão. Uma garotinha morrendo de fome, observada por um abutre que talvez estivesse apenas esperando que ela morresse. A fotografia abriu os olhos do mundo para as guerras e a fome na África em 1993; no ano seguinte, o fotógrafo Kevin Carter ganhou um Prêmio Pulitzer, mas não antes de ser julgado, no entanto, pelos milhões de pessoas que viram o registro desolador feito por ele. Todos queriam saber o que havia acontecido com a garotinha e, acima de tudo, a pergunta para a qual todos queriam uma resposta era: por que ele não ajudou a menina em vez de tirar a foto? A fotografia, a criança, o prêmio, e essa espécie de júri popular ao qual o fotógrafo foi submetido o assombraram demais. Carter condenou a si mesmo à pena de morte, e cometeu suicídio em 1994.



Outros vinte e um anos depois, somos mais uma vez atingidos por uma fotografia de uma criança. Por que aquele garotinho está deitado na praia? Ele está dormindo? Não, garotinhos não dormem assim, com suas cabecinhas na água. Mas então, por que?, nós nos perguntamos. O garotinho tem um nome, é Aylan Kurdi. Ele é mais uma vítima das atrocidades que acontecem entre a Síria e a Europa. Aylan não foi morto por balas ou bombas, ele estava tentando fugir delas. Aylan era um refugiado; ele morreu afogado a caminho da Grécia e foi encontrado em uma praia da Turquia, na mesma posição em que muitos garotinhos da sua idade dormem, sãos e salvos nos seus berços em casa.


Quarenta e três anos separam Phan Thi Kim Phuc - a garota em chamas - de Aylan, o garoto na praia, com a menina sudanesa entre eles. Todas essas fotografias tiveram impacto não apenas na sociedade como um todo, mas em cada pessoa que as viu, mesmo que tenha sido só de relance. Nos sentimos abalados e desconfortáveis quando as vemos. Queremos saber quem fez as fotos, quem eram ou quem são aquelas crianças, o que aconteceu com elas antes e depois daquele momento congelado no tempo. Cada foto tem sua própria história, e nestas as histórias são devastadoramente tristes.

Nós nos identificamos com essas fotos. Todos nós fomos crianças um dia; no entanto, a maioria de nós cresceu longe dos horrores das guerras e da fome. Nós pudemos ser crianças, não tivemos nossa infância abruptamente interrompida pelo napalm ou por uma fuga num barquinho no meio da noite que nos fizesse deixar pra traz a vida como a conhecíamos. Nós também somos mães e pais e ver uma criança - qualquer criança - em situações como essa é extremamente dolorido.

Fotografias são mais que apenas imagens. Elas falam, e nos contam dos horrores do mundo dos quais queremos manter distância. Elas colocam diante dos nossos olhos o lado horrível da humanidade que queremos ignorar. Nós as compartilhamos, nós sofremos, ficamos indignados com elas. Até que as esquecemos. Até que somos atingidos por outra fotografia, por outras Phan Thi Kims ou outros Aylans. Por outras garotinhas sem nome. Por outros horrores causados pelo homem em nome das guerras e do dinheiro.



domingo, 1 de novembro de 2015

Sobre Fotos e Viagens

"Viajar é assim; é viciante. A fotografia também. 
Combine os dois e você tem uma vida inteira de 
inquietação em que a próxima viagem é 
planejada antes mesmo que a que você está 
fazendo termine, se o tempo e 
o dinheiro permitirem."

Richard I'Anson


Li essa frase anos atrás em um livro sobre fotografia da Lonely Planet e me identifiquei no ato. Viajar e fotografar são de fato coisas completamente viciantes, tanto que eu não consigo separar uma da outra. Enquanto planejo uma viagem, eu juro, já vou pensando nas fotos que quero fazer, qual é o melhor horário do dia pra visitar cada lugar por motivos de luz/menos gente passando na frente da câmera, quais são os melhores ângulos e por aí vai. 

Acontece que existem diferentes experiências fotográficas, digamos assim, durante uma viagem. Existe o registro daquilo que você está vendo e vivendo em um determinado lugar e existe o registro que mostra a sua passagem por aquele lugar. Hoje, o acesso a equipamentos fotográficos é infinitamente mais fácil que anos atrás; quase todos os aparelhos celulares, por exemplo, têm uma câmera fotográfica embutida. Junte isso às redes sociais e pronto! Mostrar que você esteve em Paris se torna mais importante do que tudo que você viu e viveu por lá. É o que eu tenho visto acontecer por aí, infelizmente.

O fotógrafo brasileiro Fabio Seixo levantou uma reflexão sobre esse assunto tempos atrás, com seu projeto Photoland. Seixo fez diversas imagens de pessoas fotografando ao redor do mundo na tentativa de mostrar que o ato de fotografar vem se tornando mais importante que a vivência. Alguns dos cliques dele você pode ver aqui.

De fato, nas minhas andanças por aí - dentro e fora de São Paulo, diga-se de passagem - tenho percebido cada vez mais que muita gente hoje em dia tem uma necessidade imensa de "marcar território". É aquela coisa: você vai ao Louvre e em vez de ver a Mona Lisa, fotografa a Mona Lisa. Vai a um show e, na hora que a banda toca sua música favorita, você saca o celular pra filmar, e em vez de curtir a apresentação ali, ao vivo, você fica olhando pro retangulozinho que é a tela do aparelho pra ver se está filmando mesmo. Fotos e vídeos vão direto pras redes sociais. Quantos likes será que a selfie com a Mona Lisa merece?

Lembro de uma coisa que aconteceu no ano passado quando estava em Portugal. Enquanto esperava na fila para entrar na Torre de Belém, ouvi a conversa de dois casais brasileiros. Um dos maridos dizia que foi "naquela BH de Nova York" e pediu "a câmera mais cara da loja". E aí estava lá, fazendo fotos do lugar sem mal saber segurar a tal câmera caríssima; fotos da esposa, dele e da esposa, do casal que tinham acabado de conhecer na fila. Minutos antes, esse mesmo cara havia dito que não sabia porque estava naquele lugar, porque "aquela velharia" (sim, essas foram as palavras dele, eu juro.) era importante. Ou seja, ele não queria estar ali, não sabia porque estava ali, mas as fotos, ah!, essas com certeza foram pro Facebook e pro Instagram, pra mostrar pros amigos a passagem por Lisboa.

Calma lá! Não estou querendo dizer aqui que a gente não deve de jeito nenhum fazer selfies e marcar a nossa visita a algum lugar. Isso não é errado, de forma alguma! Eu mesma já fiz isso muitas vezes. Na minha última viagem de férias até criei a hashtag #allbymyselfie - um trocadilho com o nome da música All By Myself, já que eu estava viajando sozinha - para os meus autorretratos compartilhados nas redes sociais. Acho que esse tipo de registro é uma parte gostosa da viagem, e é importante, sim. O problema é quando ele passa a ser mais importante que a viagem em si.

#allbymyselfie no Porto
Ainda nessa viagem do ano passado, nos dias em que estive em Barcelona tive a oportunidade de ver algo com que eu sonhava desde pequena (pra ser mais exata, desde a abertura dos Jogos Olímpicos de 1992 - sim, eu lembro, e se você não lembra é só clicar aqui): os castellers, que fazem parte de uma tradição catalã chamada castells, que são basicamente torres humanas. Lembro quando a dona do apê disse que os castellers estariam na Festa Major del Raval. Meu coração veio na boca! A primeira coisa que eu pensei foi que finalmente eu realizaria meu sonho de ver aquilo ao vivo e a cores. A segunda foi que eu conseguiria fotografar aquilo. Pois é.


No dia seguinte, lá estava eu na Rambla del Raval, câmera a postos, coração a mil e dedinho nervoso pra começar a clicar logo. Vi os castellers chegando e se preparando, me arrepiei até o último fio de cabelo quando começaram a tocar o Toc de Castells. Sim, eu fiz um videozinho no celular. Sim, eu fotografei muito. Mas não o tempo todo. Guardei a câmera na bolsa e curti o momento, torres subindo e descendo, crianças pequenas e corajosas indo ao ponto mais alto delas, gente se ajudando nessa tradição que é um exemplo de trabalho coletivo. Ao meu redor, muita gente acompanhado tudo, o tempo todo, por telas e visores.


Fiz muitas fotos legais nesse dia. São um registro do que eu vi que não só vão me fazer lembrar daquele momento pra sempre, mas que também podem mostrar pra quem não estava lá o que foi esse momento. O que vi. Agora, o que eu vivi é só meu. A emoção de estar lá, o arrepio, o calor, a sensação... A experiência é só minha. E, sem dúvida, ela é infinitamente maior e melhor que as fotos.

Fotografar em viagem é uma delícia. Ver as fotos depois é mais gostoso ainda. Só que a gente não pode deixar que isso se torne mais importante que a viagem em si. Às vezes é bom largar a câmera e o celular e simplesmente curtir o momento, pois existem muitas coisas que esses aparelhos nunca vão conseguir registrar. Essa memória física, congelada, é muito legal. Compartilhar com os amigos também. Mas as histórias vividas em uma viagem costumam ser bem mais interessantes. As fotos são apenas parte de algo muito maior, que é a experiência de conhecer outros lugares, pessoas, culturas. Afinal, cá entre nós, se for só pra fazer selfie com a Torre Eiffel de fundo, não há nada que um Photoshop não resolva. Pra que cruzar o oceano? rs

sábado, 17 de outubro de 2015

Tibidabo

Ti-bi-da-bo. Parece trava-línguas. Ou alguma brincadeira de criança. A segunda opção está mais próxima da verdade. O Parc d'Atraccions del Tibidabo é um parque de diversões que fica no topo da montanha de mesmo nome. Daí você deve estar se perguntando: "um parque de diversões no alto de uma montanha? Como isso é possível?" Pois eu te digo que esse lugar existe, sim. E tenho como provar:


Quando estive em Barcelona pela primeira vez em 2010, fui conhecer o Parc Güell - aquela lindeza de lugar que une a natureza à genialidade do Gaudí, e que  certamente será assunto de um post futuro. De lá dava pra ver que no alto de uma montanha existia um parque de diversões. Fiquei curiosa pra saber que lugar era esse, mas como tinha apenas três dias na cidade, nem procurei mais informações. Já de volta ao Brasil, estava assistindo Vicky Cristina Barcelona e eis que, de repente:



Pois é, lá estava o Javier-muso-Bardem no tal parque. Daí foi só fazer uma pesquisa rápida no google pra descobrir que lugar era esse. Ficou na minha listinha de "coisas pra fazer em Barcelona" quando voltasse à cidade. No ano passado, eu finalmente voltei e fiz questão de incluir o Tibidabo no meu roteiro.


Na primeira foto desse post dá pra ter uma ideia da distância entre o parque e o centro da cidade. Chegar até lá leva um tempinho, mas a jornada vale a pena: depois de tomar um trem na Plaça Catalunya, você chega a Avinguda Tibidabo. Sim, o nome é o mesmo, mas você ainda não chegou ao destino final. Lá, você toma o Tramvia Blau, um simpático e antigo bondinho que sobe o morro passando pelos casarões antigos do bairro de Sarriá. Um trem e um bondinho depois e você... Precisa subir mais um pedaço da montanha a bordo de um funicular. Aí sim, você finalmente chegou ao parque de diversões.


O Parc d'Atraccions del Tibidabo foi inaugurado em 1901 e ainda mantém um quê de parque de diversões antigos. As atrações mais velhas dividem espaço com outras mais modernas, tudo isso em vários "andares", afinal, é um parque no topo de uma montanha. O Carrossel, pro exemplo, é de 1910.




Lá no alto da montanha está também o Temple del Sagrat Cor, uma igreja católica construída apenas com o dinheiro obtido por meio de doações dos fiéis. É bem interessante ver uma igreja dividindo espaço com um parque de diversões, ainda mais pelo lugar onde os dois foram construídos. Se hoje em dia já seria difícil erguer tudo isso no alto de uma montanha, imagina no início do século XX!


Confesso que fui até lá pensando muito mais nas fotos que na diversão, mas acabei curtindo muito o dia no parque. Como estava sozinha, acabei indo em algumas das atrações com crianças que estavam passeando por lá com grupos que organizam atividades de férias. Ri horrores com a Alina, a Gala e a Joana, três catalãs de 8 anos de idade com quem fui na roda gigante, e morri de amores pelo Biel, um fofo de 6 anos com quem fui numa mini montanha-russa. Nunca vou esquecer do Biel dizendo "me encantan las montañas rusas" com um sorrisão no rosto e aquele brilho de excitação infantil nos olhos.




A ida ao Tibidabo não foi um passeio lá dos mais baratos. Custou uns boooons euros, mas valeu cada centavo. O lugar é realmente incrível. Vale a pena não apenas pela diversão de um dia no parque - dá pra voltar a ser criança por lá - mas também porque é um daqueles lugares que pedem pra que você fotografe cada cantinho. Um ano depois da minha visita, acho que fotografei pouco. Sinto que vou ter que voltar lá um dia pra fazer mais fotos. E pra me divertir também. Que coisa, né?