Começo esse post com um mea culpa: eu já tirei uma selfie com uma estátua.
| Pra quem não reconheceu, esse é o Fernando Pessoa |
Pior: eu já tirei mais de uma selfie com uma estátua.
| Pra quem não reconheceu esse aí também, é o Dom Quixote. |
Como você já deve ter percebido, volto ao blog depois de um hiato de meses sem aparecer por aqui pra escrever motivada pela confusão envolvendo uma estátua de 300 anos (ou menos, a idade varia de acordo com a fonte) e um turista brasileiro. Ao tentar fazer uma selfie, o rapaz derrubou uma obra de arte do século XVIII no Museu de Arte Antiga, em Lisboa.
Quando o assunto surgiu nas rodas de conversa por aí, o primeiro comentário que surgiu, infelizmente, foi o clichê "Ah, mas tinha que ser brasileiro mesmo!". Eu acho curioso esse negócio de brasileiro não gostar de turista brasileiro, sendo que quando viajamos somos todos o quê? Turistas brasileiros. Pois é. Nas minhas poucas andanças por aí, eu realmente já vi muitos brasileiros se comportando muito mal em museus e lugares históricos (teve uma família que conseguiu dar uma boa estragada na minha visita ao Palácio Nacional de Sintra). Acontece que já vi gente de outros países causando bastante também, principalmente dos Estados Unidos e, pasmem, do Japão. Acredite se quiser, vi um grupo de japoneses quase ser expulso do Palácio Real de Madrid porque insistiam em tocar nas cortinas e em outros objetos, mesmo depois de uma funcionária do local explicar e pedir mais de uma vez para que não tocassem em nada. Acho sinceramente que nesse caso da estátua, o problema definitivamente não foi a nacionalidade do cara.
Num dos meus primeiros posts aqui, escrevi sobre fotografia de viagens, sobre como as fotos vêm se tornando muitas vezes mais importantes que a viagem em si. Essa reflexão motivou, inclusive, meu TCC na faculdade de Letras (um TCC de Letras sobre fotografia? Sim, você não leu errado. Prometo escrever mais sobre ele em outro post). Nesse trabalho, usei uma citação da Lúcia Santaella que diz o seguinte: "Fotografar tornou-se um ato indiscriminado, pois errar, tanto no gesto quanto no alvo, não traz consequências. Quando o gesto se torna mínimo, o alvo pode ser qualquer coisa e o resultado é descartável sem quaisquer prejuízos. Além de indiscriminado, o gesto torna-se também inconsequente." Santaella aí só disse verdades.
Não dá pra negar que a democratização da fotografia hoje caminha a passos largos. Até o celular mais comum tem lá uma camerazinha, e já não dependemos mais da revelação e ampliação pra compartilhar as imagens que fizemos. Lembro que, no passado, quando alguém viajava, ver as fotos de viagem era um evento: você ia à casa da pessoa, ou ela ia até a sua casa, e eram horas folheando álbuns e conversando sobre os lugares. Hoje em dia, dá pra seguir em tempo real a viagem dos amigos pelas redes sociais. Sinceramente? Preferia como era no passado.
Eu não sei qual é o histórico desse cara que derrubou a estátua, por isso vou tentar não julgar. Não sei se ele queria tirar uma selfie com a tal estátua porque gosta muito de arte, ou se foi só pra fazer graça. De uma forma ou de outra, ele queria mostrar pra alguém - pra "alguéns", muito provavelmente - que passou por aquele museu e viu aquela estátua. Mais ou menos como a grande maioria de pessoas que vai ao Louvre e fotografa a Mona Lisa em vez de observar a Mona Lisa.
Acho também que o museu vacilou ao deixar uma obra tão importante exposta de forma tão vulnerável. Ela foi derrubada por um turista que queria fazer uma selfie, mas podia ter sido uma criança, podia ter sido um idoso, podia ter sido alguém que tropeçou, alguém que passou mal. Ou seja, não existe ninguém certo nessa história. Pelo menos não na minha opinião. Turista e museu erraram feio, erraram rude.
Eu sou meio rata de museu, frequento muito e, quando possível, adoro fotografar esse tipo de lugar. Acontece que existe todo um protocolo - às vezes explícito, às vezes não - para fotografar museus. Muitos sequer permitem fotografar; aqueles que permitem, proíbem o uso de flash, já que o excesso de luminosidade emitida pelo equipamento pode deteriorar as obras. As demais regras, acredito, são de senso comum: não tocar nas obras, não ultrapassar as linhas de segurança, não atrapalhar a observação e a circulação dos demais visitantes enquanto fotografa. O mais importante pra mim, no entanto, é não deixar que as fotos se tornem mais importantes que a experiência de conhecer o museu.
Lembro da primeira vez que fui ao Reina Sofía, em Madrid. Tinha pouco tempo pra andar por lá, e fui direto ver a Guernica de Pablo Picasso. Depois do impacto inicial ao ver aquela obra imensa e tão chocante, o que foi que eu fiz? Saquei a câmera da bolsa, mirei e... Apareceu uma funcionária dizendo que era proibido fotografar. Muito a contragosto, respeitei a orientação da moça, mas fiquei brava por não poder fazer uma foto daquele que foi um dos pontos mais altos da minha viagem à Europa. Hoje em dia, me pergunto: eu queria uma foto da Guernica pra quê? É só jogar no google que o quadro está lá! Talvez naquela época eu quisesse ter uma espécie de memória física daquele momento, algo que eu pudesse compartilhar com alguém. No entanto, mesmo sem a foto, a lembrança daquele primeiro contato com o quadro que retrata os horrores da Guerra Civil Espanhola continua comigo, e vai continuar, pra sempre. Acabei fazendo outras fotos por lá, em lugares onde fotografar era permitido, que sem dúvida são muito melhores que qualquer foto que eu fizesse de qualquer quadro ou escultura exposta ali. Quanto à Guernica, bastou comprar um cartão postal na gift shop do museu e saí de lá com a reprodução do quadro que eu tanto queria.
Por mais que eu ame fotografar, por mais que isso seja uma parte tão importante da minha vida, vou sempre bater na mesma tecla: não podemos deixar que as fotografias se tornem mais importantes ou maiores que as experiências que vivemos. Isso vale pro museu, pra viagem, pra festa dos amigos, pro casamento da prima. É bom ter o registro de tudo isso? É, sim. É ótimo. Mas a partir do momento em que a necessidade de registrar se torna um problema, será que ainda vale a pena?
Quando o assunto surgiu nas rodas de conversa por aí, o primeiro comentário que surgiu, infelizmente, foi o clichê "Ah, mas tinha que ser brasileiro mesmo!". Eu acho curioso esse negócio de brasileiro não gostar de turista brasileiro, sendo que quando viajamos somos todos o quê? Turistas brasileiros. Pois é. Nas minhas poucas andanças por aí, eu realmente já vi muitos brasileiros se comportando muito mal em museus e lugares históricos (teve uma família que conseguiu dar uma boa estragada na minha visita ao Palácio Nacional de Sintra). Acontece que já vi gente de outros países causando bastante também, principalmente dos Estados Unidos e, pasmem, do Japão. Acredite se quiser, vi um grupo de japoneses quase ser expulso do Palácio Real de Madrid porque insistiam em tocar nas cortinas e em outros objetos, mesmo depois de uma funcionária do local explicar e pedir mais de uma vez para que não tocassem em nada. Acho sinceramente que nesse caso da estátua, o problema definitivamente não foi a nacionalidade do cara.
Num dos meus primeiros posts aqui, escrevi sobre fotografia de viagens, sobre como as fotos vêm se tornando muitas vezes mais importantes que a viagem em si. Essa reflexão motivou, inclusive, meu TCC na faculdade de Letras (um TCC de Letras sobre fotografia? Sim, você não leu errado. Prometo escrever mais sobre ele em outro post). Nesse trabalho, usei uma citação da Lúcia Santaella que diz o seguinte: "Fotografar tornou-se um ato indiscriminado, pois errar, tanto no gesto quanto no alvo, não traz consequências. Quando o gesto se torna mínimo, o alvo pode ser qualquer coisa e o resultado é descartável sem quaisquer prejuízos. Além de indiscriminado, o gesto torna-se também inconsequente." Santaella aí só disse verdades.
Não dá pra negar que a democratização da fotografia hoje caminha a passos largos. Até o celular mais comum tem lá uma camerazinha, e já não dependemos mais da revelação e ampliação pra compartilhar as imagens que fizemos. Lembro que, no passado, quando alguém viajava, ver as fotos de viagem era um evento: você ia à casa da pessoa, ou ela ia até a sua casa, e eram horas folheando álbuns e conversando sobre os lugares. Hoje em dia, dá pra seguir em tempo real a viagem dos amigos pelas redes sociais. Sinceramente? Preferia como era no passado.
Eu não sei qual é o histórico desse cara que derrubou a estátua, por isso vou tentar não julgar. Não sei se ele queria tirar uma selfie com a tal estátua porque gosta muito de arte, ou se foi só pra fazer graça. De uma forma ou de outra, ele queria mostrar pra alguém - pra "alguéns", muito provavelmente - que passou por aquele museu e viu aquela estátua. Mais ou menos como a grande maioria de pessoas que vai ao Louvre e fotografa a Mona Lisa em vez de observar a Mona Lisa.
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| Foto do projeto Photoland, de Fábio Seixo |
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| Estátua de São Miguel Arcanjo depois do acidente. Foto do jornal Extra. |
Eu sou meio rata de museu, frequento muito e, quando possível, adoro fotografar esse tipo de lugar. Acontece que existe todo um protocolo - às vezes explícito, às vezes não - para fotografar museus. Muitos sequer permitem fotografar; aqueles que permitem, proíbem o uso de flash, já que o excesso de luminosidade emitida pelo equipamento pode deteriorar as obras. As demais regras, acredito, são de senso comum: não tocar nas obras, não ultrapassar as linhas de segurança, não atrapalhar a observação e a circulação dos demais visitantes enquanto fotografa. O mais importante pra mim, no entanto, é não deixar que as fotos se tornem mais importantes que a experiência de conhecer o museu.
Lembro da primeira vez que fui ao Reina Sofía, em Madrid. Tinha pouco tempo pra andar por lá, e fui direto ver a Guernica de Pablo Picasso. Depois do impacto inicial ao ver aquela obra imensa e tão chocante, o que foi que eu fiz? Saquei a câmera da bolsa, mirei e... Apareceu uma funcionária dizendo que era proibido fotografar. Muito a contragosto, respeitei a orientação da moça, mas fiquei brava por não poder fazer uma foto daquele que foi um dos pontos mais altos da minha viagem à Europa. Hoje em dia, me pergunto: eu queria uma foto da Guernica pra quê? É só jogar no google que o quadro está lá! Talvez naquela época eu quisesse ter uma espécie de memória física daquele momento, algo que eu pudesse compartilhar com alguém. No entanto, mesmo sem a foto, a lembrança daquele primeiro contato com o quadro que retrata os horrores da Guerra Civil Espanhola continua comigo, e vai continuar, pra sempre. Acabei fazendo outras fotos por lá, em lugares onde fotografar era permitido, que sem dúvida são muito melhores que qualquer foto que eu fizesse de qualquer quadro ou escultura exposta ali. Quanto à Guernica, bastou comprar um cartão postal na gift shop do museu e saí de lá com a reprodução do quadro que eu tanto queria.
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| Um dos corredores do Centro de Arte Reina Sofía, em Madrid. |


















































