domingo, 20 de novembro de 2016

A estátua, a selfie e a confusão

Começo esse post com um mea culpa: eu já tirei uma selfie com uma estátua.

Pra quem não reconheceu, esse é o Fernando Pessoa
Pior: eu já tirei mais de uma selfie com uma estátua.

Pra quem não reconheceu esse aí também, é o Dom Quixote.
Como você já deve ter percebido, volto ao blog depois de um hiato de meses sem aparecer por aqui pra escrever motivada pela confusão envolvendo uma estátua de 300 anos (ou menos, a idade varia de acordo com a fonte) e um turista brasileiro. Ao tentar fazer uma selfie, o rapaz derrubou uma obra de arte do século XVIII no Museu de Arte Antiga, em Lisboa.

Quando o assunto surgiu nas rodas de conversa por aí, o primeiro comentário que surgiu, infelizmente, foi o clichê "Ah, mas tinha que ser brasileiro mesmo!". Eu acho curioso esse negócio de brasileiro não gostar de turista brasileiro, sendo que quando viajamos somos todos o quê? Turistas brasileiros. Pois é. Nas minhas poucas andanças por aí, eu realmente já vi muitos brasileiros se comportando muito mal em museus e lugares históricos (teve uma família que conseguiu dar uma boa estragada na minha visita ao Palácio Nacional de Sintra). Acontece que já vi gente de outros países causando bastante também, principalmente dos Estados Unidos e, pasmem, do Japão. Acredite se quiser, vi um grupo de japoneses quase ser expulso do Palácio Real de Madrid porque insistiam em tocar nas cortinas e em outros objetos, mesmo depois de uma funcionária do local explicar e pedir mais de uma vez para que não tocassem em nada. Acho sinceramente que nesse caso da estátua, o problema definitivamente não foi a nacionalidade do cara.

Num dos meus primeiros posts aqui, escrevi sobre fotografia de viagens, sobre como as fotos vêm se tornando muitas vezes mais importantes que a viagem em si. Essa reflexão motivou, inclusive, meu TCC na faculdade de Letras (um TCC de Letras sobre fotografia? Sim, você não leu errado. Prometo escrever mais sobre ele em outro post). Nesse trabalho, usei uma citação da Lúcia Santaella que diz o seguinte: "Fotografar tornou-se um ato indiscriminado, pois errar, tanto no gesto quanto no alvo, não traz consequências. Quando o gesto se torna mínimo, o alvo pode ser qualquer coisa e o resultado é descartável sem quaisquer prejuízos. Além de indiscriminado, o gesto torna-se também inconsequente." Santaella aí só disse verdades.

Não dá pra negar que a democratização da fotografia hoje caminha a passos largos. Até o celular mais comum tem lá uma camerazinha, e já não dependemos mais da revelação e ampliação pra compartilhar as imagens que fizemos. Lembro que, no passado, quando alguém viajava, ver as fotos de viagem era um evento: você ia à casa da pessoa, ou ela ia até a sua casa, e eram horas folheando álbuns e conversando sobre os lugares. Hoje em dia, dá pra seguir em tempo real a viagem dos amigos pelas redes sociais. Sinceramente? Preferia como era no passado.

Eu não sei qual é o histórico desse cara que derrubou a estátua, por isso vou tentar não julgar. Não sei se ele queria tirar uma selfie com a tal estátua porque gosta muito de arte, ou se foi só pra fazer graça. De uma forma ou de outra, ele queria mostrar pra alguém - pra "alguéns", muito provavelmente - que passou por aquele museu e viu aquela estátua. Mais ou menos como a grande maioria de pessoas que vai ao Louvre e fotografa a Mona Lisa em vez de observar a Mona Lisa.

Foto do projeto Photoland, de Fábio Seixo
Acho também que o museu vacilou ao deixar uma obra tão importante exposta de forma tão vulnerável. Ela foi derrubada por um turista que queria fazer uma selfie, mas podia ter sido uma criança, podia ter sido um idoso, podia ter sido alguém que tropeçou, alguém que passou mal. Ou seja, não existe ninguém certo nessa história. Pelo menos não na minha opinião. Turista e museu erraram feio, erraram rude.

Estátua de São Miguel Arcanjo depois do acidente. Foto do jornal Extra.

Eu sou meio rata de museu, frequento muito e, quando possível, adoro fotografar esse tipo de lugar. Acontece que existe todo um protocolo - às vezes explícito, às vezes não - para fotografar museus. Muitos sequer permitem fotografar; aqueles que permitem, proíbem o uso de flash, já que o excesso de luminosidade emitida pelo equipamento pode deteriorar as obras. As demais regras, acredito, são de senso comum: não tocar nas obras, não ultrapassar as linhas de segurança, não atrapalhar a observação e a circulação dos demais visitantes enquanto fotografa. O mais importante pra mim, no entanto, é não deixar que as fotos se tornem mais importantes que a experiência de conhecer o museu.

Lembro da primeira vez que fui ao Reina Sofía, em Madrid. Tinha pouco tempo pra andar por lá, e fui direto ver a Guernica de Pablo Picasso. Depois do impacto inicial ao ver aquela obra imensa e tão chocante, o que foi que eu fiz? Saquei a câmera da bolsa, mirei e... Apareceu uma funcionária dizendo que era proibido fotografar. Muito a contragosto, respeitei a orientação da moça, mas fiquei brava por não poder fazer uma foto daquele que foi um dos pontos mais altos da minha viagem à Europa. Hoje em dia, me pergunto: eu queria uma foto da Guernica pra quê? É só jogar no google que o quadro está lá! Talvez naquela época eu quisesse ter uma espécie de memória física daquele momento, algo que eu pudesse compartilhar com alguém. No entanto, mesmo sem a foto, a lembrança daquele primeiro contato com o quadro que retrata os horrores da Guerra Civil Espanhola continua comigo, e vai continuar, pra sempre. Acabei fazendo outras fotos por lá, em lugares onde fotografar era permitido, que sem dúvida são muito melhores que qualquer foto que eu fizesse de qualquer quadro ou escultura exposta ali. Quanto à Guernica, bastou comprar um cartão postal na gift shop do museu e saí de lá com a reprodução do quadro que eu tanto queria.

Um dos corredores do Centro de Arte Reina Sofía, em Madrid. 
Por mais que eu ame fotografar, por mais que isso seja uma parte tão importante da minha vida, vou sempre bater na mesma tecla: não podemos deixar que as fotografias se tornem mais importantes ou maiores que as experiências que vivemos. Isso vale pro museu, pra viagem, pra festa dos amigos, pro casamento da prima. É bom ter o registro de tudo isso? É, sim. É ótimo. Mas a partir do momento em que a necessidade de registrar se torna um problema, será que ainda vale a pena?

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Fotografia + Literatura

Não foi pelos guias ou revistas de viagens que cheguei até a vila portuguesa de Sintra. Quem me levou até lá foi Eça de Queiroz, um dos meus escritores favoritos. Foi ele quem escreveu Os Maias, livro do qual eu gosto tanto que virou até tatuagem no meu braço direito. Por isso, hoje quem vai falar de Sintra não sou eu. As fotos são minhas, mas as palavras são dele.



"O quê! O maestro não conhecia Sintra?... Então era necessário ficarem lá,
fazer as peregrinações clássicas, subir à Pena, ir beber água à Fonte dos
Amores, barquejar na várzea..."
































"Chegavam às primeiras casas de Sintra; havia já verduras na estrada, e batia-lhes no rosto o primeiro sopro forte e fresco da serra."





"E a passo, o break foi penetrando sob as árvores do Ramalhão. Com a paz
das grandes sombras, envolvia-os pouco a pouco uma lenta e embaladora
sussurração de ramagens, e como o difuso e vago murmúrio
de águas correntes."


"Os muros estavam cobertos de heras e de musgos; através da folhagem,
faiscavam longas flechas de sol. Um ar de sutil e aveludado circulava,
recendendo a verduras novas; aqui e além, nos ramos mais sombrios,
pássaros chilreavam de leve; e naquele simples bocado de estrada.
todo salpicado de manchas do sol, sentia-se já, sem ver, a solenidade
dos espessos arvoredos, a frescura distante das nascentes vivas,
a tristeza que cai das penedias e o repouso fidalgo das 
quintas de verão..."



"Cruges não respondeu, mudo, enlevado, recebendo como uma impressão
religiosa de todo aquele esplendor sombrio de arvoredo, dos altos
fragosos da serra entrevistos um instante lá em cima nas nuvens,
desse aroma que ele sorvia deliciosamente, e do sussurro doce
de águas descendo para os vales..."


"E foi o que mais lhe agradou - este maciço e silencioso palácio sem florões
e sem torres, patriarcalmente assentado entre o casario da vila, com as suas
belas janelas manuelinas que lhe fazem um nobre semblante real, o vale
aos pés, frondoso e fresco, e no alto as duas chaminés colossais, disformes,
resumindo tudo, como se essa residência fosse toda ela uma cozinha
talhada às proporções de uma gula de rei que cada dia come todo um reino..."




























"De vez em quando aparecia um bocado da serra, com a sua muralha de ameias correndo sobre as penedias, ou via-se o castelo da Pena, solitário lá no alto. E por toda a parte, o luminoso ar de de abril punha a doçura de seu veludo."



"- De resto, filho - continuou Alencar -, tudo em Sintra é divino. 
Não há cantinho que não seja um poema... Olha, ali tens tu, 
por exemplo, aquela linda florzinha azul... - e, ternamente, apanhou-a. "


"- Com mil raios! - exclamou de repente o Cruges, saltando de dentro da manta,
com um berro que emudeceu o poeta, fez voltar Carlos na almofada,
assustou o trintanário.
O break parara; todos o olhavam suspensos; e no vasto silêncio
de charneca, sob a paz do luar, Cruges, sucumbido, exclamou:
- Esqueceram-me as queijadas!"





(Todos os trechos que servem de legenda para as fotos desse post foram retirados do Capítulo VIII do livro Os Maias, de Eça de Queiroz. Recomendo a leitura, não só pelo excelente enredo criado pelo autor, mas pelo retrato que ele faz da sociedade portuguesa da época. Pra quem tem preguiça de ler, a Rede Globo fez uma minissérie maravilhosa sobre o livro, muito fiel ao texto. Vale a pena assistir.)





terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Alfama


(Este é um post com trilha sonora. Para ouvir, clique aqui.)

Já falei em posts anteriores que estive duas vezes em Lisboa? Não lembro. Pois bem, a primeira foi em 2010, a segunda em 2014 e a terceira eu espero que não demore a chegar. Sabe amor à primeira vista? É isso. Eu me apaixonei por Lisboa ainda dentro do avião, vendo pela janelinha o Tejo, a Torre de Belém, o Mosteiro dos Jerónimos, o Aqueduto das Águas Livres... Pra sedimentar de vez esse amor no meu coração, no dia da minha chegada, logo que desci do táxi, entrei na Rua Augusta (pois é, lá também tem uma, mas é bem diferente da nossa aqui), dei de cara com o Arco Triunfal e - eu juro - alguém começou a tocar um fado num acordeon. Eu chorei, eu passei reto pelo hostel onde ia ficar, eu esqueci do frio, eu esqueci de tudo. Eu me apaixonei ali, naquele instante, e posso afirmar que é amor-verdadeiro-amor-eterno até hoje, quase seis anos depois daquele 20 de janeiro de 2010.

Lisboa vista do alto do Mosteiro de São Vicente de Fora
Dito isso, não vou me alongar muito aqui sobre meu sentimento por essa cidade que considero meu lugar no mundo e onde ainda quero morar um dia. Já escrevi para o site Iza Pelo Mundo sobre 10 motivos para amar Lisboa, mas te garanto que consigo achar muitos mais. Faz tempo que tenho pensado em um post sobre esse assunto, mas nem sempre é fácil escrever sobre algo que a gente ama (pelo menos pra mim, não é). Assim, em vez de escrever um texto só falando sobre a cidade toda, resolvi dar uma de Jack, o estripador (vocês perdoam a piadinha infame e clichê?) e ir por partes. Talvez assim seja mais fácil.

Mapa em azulejos com sugestões de roteiros por Alfama
Resolvi começar por Alfama por ser um dos bairros mais representativos de Lisboa, e também o mais antigo de todos, tendo sobrevivido ao terremoto de 1755 que devastou a cidade. É um bairro pitoresco, com ruas e vielas estreitas, muito sobe e desce, fado, azulejos, roupas estendidas do lado de fora das janelas e balcões, enfim, "é uma casa portuguesa, com certeza". Ainda tem um castelo e um mosteiro. Tudo isso na colina mais alta da capital portuguesa, o que ainda faz com que existam por ali vários miradouros - que aqui nós chamamos de mirantes - de onde é possível admirar o rio Tejo, os telhadinhos vermelhos e tudo mais de lindo que Lisboa tem pra oferecer.

"É, com certeza, uma casa portuguesa"

Na saída do Panteão Nacional

Na primeira vez que estive por lá, em janeiro de 2010, era inverno. Fiquei só 4 dias na cidade, e justamente no dia que fui ao Castelo de São Jorge pra depois descer a pé pelo bairro, choveu muito. Choveu o dia todo. Tentei ir no dia seguinte, mas a chuva não deu trégua. Acabou não rolando e ficou na minha listinha de coisas pra fazer quando voltasse a Portugal.

Já em julho de 2014, a história foi outra: verão, muito sol, muito calor, céu azul e uma semana inteira pra curtir Lisboa. Fui duas vezes a Alfama. Na primeira, fiquei um dia inteiro por lá, passando pela Feira da Ladra, Panteão Nacional, Mosteiro de São Vicente de Fora (lugar incrível e assunto pra outro post), Castelo de São Jorge e Largo das Portas do Sol, a partir de onde comecei a andar sem rumo até chegar à Baixa. 

Azulejos na Feira da Ladra







Cantinhos escondidos do bairro

Na segunda vez, tentei seguir um roteiro do site Lisbon Lux, mas confesso que foi muito difícil. O bairro tem muitas ruas, vielas, travessas, escadinhas e escadarias, às vezes com o mesmo nome. É fácil se perder por lá, e, pra ser sincera, acho que o melhor que pode acontecer é isso mesmo. Alfama é um lugar perfeito pra perder o rumo, andar a esmo, só observando e aproveitando cada surpresa que surge no final de uma viela ou ao virar uma esquina. Alfama é onde a gente se perde e encontra uma beleza sem fim.


























Cheira bem, cheira à Lisboa...

Alfama vista do Largo das Portas do Sol

Termino esse post com o coração cheio de saudade da minha cidade da favorita e das minhas andanças sem rumo por seu bairro mais icônico. Para quem pretende visitar Lisboa um dia, deixo aqui a dica: reserve um dia, ou pelo menos uma parte de um dia, pra se perder pelas vielas d'Alfama. Guarde o mapa na mochila e o relógio também, deixe a curiosidade ser seu guia. Às vezes é bom deixar os planos e os roteiros de lado e simplesmente viver o lugar, e Alfama, sem dúvida, é o espaço perfeito pra essa despreocupação. Caminhe devagar, olhos e ouvidos atentos, e tenho certeza que você vai encontrar surpresas lindas quando menos esperar. Foi assim que aconteceu comigo.


Ruas, vielas, becos, travessas...


Roupas e bandeiras nas janelas (era época de Copa)
São Vicente, padroeiro da cidade, fica por lá


























P.S.: Quer ver um pouquinho mais d'Alfama pelos olhos de uma outra pessoa? Que tal o diretor Wim Wenders? É dele o filme Lisbon Story (que aqui no Brasil tem o nome O Céu de Lisboa), que tem o bairro como um de seus cenários principais. Deixo aqui minha cena favorita, que não só mostra um pouquinho da beleza da cidade, mas também é de uma delicadeza que só os grandes gênios do cinema são capazes. O clipe do link láááá do começo do post tem imagens desse filme, que tem trilha sonora do grupo português Madredeus.