Eu gosto de museus. Gosto da arte neles presente, gosto da arquitetura dos prédios que recebem o nome de museu, gosto do cheiro, gosto do silêncio que reina em muitos deles, gosto do ambiente, gosto de me envolver na cultura e na história que existem nesses lugares.
Eu gosto também da língua portuguesa. Gosto dos sons, das palavras, da maneira como elas se interligam, dos sotaques daqui e d'além mar. Gosto da literatura em língua portuguesa, dos conflitos humanos traduzidos em palavras nessa língua que tenho orgulho de chamar de minha.
Assim, como eu poderia não gostar de um museu todinho dedicado a língua portuguesa?
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| Crianças correndo na Grande Galeria |
O Museu da Língua Portuguesa, localizado dentro do icônico prédio da Estação da Luz, em São Paulo, foi inaugurado em março de 2006. Alguns meses depois, lá estava eu me enveredando pelas veredas de Guimarães Rosa na primeira das muitas exposições temporárias que passaram por lá. Nos quase 10 anos de vida desse espaço cultural, voltei incontáveis vezes para visitas às mostras, para rever o acervo permanente e, claro, para fotografar.
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| Grande Sertão: Veredas, a primeira exposição |
Ao longo desse tempo, fui estabelecendo uma relação afetiva com esse espaço. Moro perto da Luz, e o Museu da Língua Portuguesa acabou me levando também para a Pinacoteca e para o Parque da Luz. Passei, e ainda passo muitos domingos por ali, fotografando ou só passeando mesmo.
Lembro de cada uma das exposições que vi por lá. Algumas foram mais marcantes que outras, claro. Visitei a primeira, sobre o livro
Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, duas vezes e, se pudesse, voltaria no tempo agora para uma terceira visita, que certamente seria aproveitada de outra forma depois de quatro semestres de estudo de Literatura Brasileira, sendo um deles sobre esse autor. Lembro que estava começando a me aventurar na fotografia lá por 2006 e fiz algumas imagens da exposição; hoje com certeza faria muitas mais.
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| Clarice Lispector |
Lembro das gavetas de Clarice Lispector, dos capítulos de Machado de Assis, dos poemas de Fernando Pessoa escritos virtualmente na areia. Da exposição
Menas, de 2010, uma das fotos que fiz virou capa de livro didático (confira
aqui). Na exposição sobre Cazuza, fui a primeira a entrar no Museu num domingo qualquer, e durante um bom tempo aquele espaço foi só meu. Brinquei muitas vezes no Beco das Palavras, e na Praça da Língua sempre repetia baixinho alguns dos poemas declamados ali que eu sei de cor. Na minha última visita, li poemas de autores contemporâneos pouco conhecidos perfeitos para o momento pelo qual estava passando na época. Cada uma dessas exposições me tocou o coração de um jeito diferente.
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| O telefone amarelo do Cazuza |
Um dos aspectos mais interessantes do Museu da Língua Portuguesa pra mim é, sem dúvida, a
interatividade. Mesmo nas exposições temporárias, essa sempre foi uma característica presente e marcante desse espaço. Já estive em alguns dos museus mais famosos do mundo, como o British Museum, o Louvre e o Prado, e em nenhum deles existe essa possibilidade de interação com o acervo. Acho que isso, além do fato de ser o único museu dedicado a uma língua, fez dele um espaço tão especial e singular. Talvez seja essa interatividade um dos grandes responsáveis pelos quase 3 milhões de visitantes que passaram por lá, já que vivemos em um país onde a maioria da população não gosta de língua portuguesa e não se interessa por literatura. Olha só: em 9 anos, essa gente toda teve a oportunidade de conhecer mais sobre a nossa língua, e, por consequência, sobre a nossa cultura.
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| Poema de Fernando Pessoa "escrito" na areia |
Por tudo isso, foi impossível conter as lágrimas ao ver o Museu da Língua Portuguesa tomado por um incêndio, totalmente destruído. Mais do que um instrumento de fundamental importância num país tão carente de espaços culturais, o Museu da Língua Portuguesa era um lugar
meu, do
meu coração. Foram quase 10 anos de uma convivência próxima e estreita. É um lugar que faz parte das minhas escolhas profissionais, da minha história, da minha vida, enfim.
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| Crianças brincando de fazer sombras na Grande Galeria |
Nessa época do ano em que tanta gente faz pedidos, deixo aqui o meu desejo: que o Museu da Língua Portuguesa, tão querido, seja restaurado e volte logo a funcionar, ainda mais bonito e mais interessante. Enquanto isso não acontece, revejo as fotos com o coração cheio de saudade.