Não foi pelos guias ou revistas de viagens que cheguei até a vila portuguesa de Sintra. Quem me levou até lá foi Eça de Queiroz, um dos meus escritores favoritos. Foi ele quem escreveu Os Maias, livro do qual eu gosto tanto que virou até tatuagem no meu braço direito. Por isso, hoje quem vai falar de Sintra não sou eu. As fotos são minhas, mas as palavras são dele.
"O quê! O maestro não conhecia Sintra?... Então era necessário ficarem lá,
fazer as peregrinações clássicas, subir à Pena, ir beber água à Fonte dos
Amores, barquejar na várzea..."
"Chegavam às primeiras casas de Sintra; havia já verduras na estrada, e batia-lhes no rosto o primeiro sopro forte e fresco da serra."
"E a passo, o break foi penetrando sob as árvores do Ramalhão. Com a paz
das grandes sombras, envolvia-os pouco a pouco uma lenta e embaladora
sussurração de ramagens, e como o difuso e vago murmúrio
de águas correntes."
"Os muros estavam cobertos de heras e de musgos; através da folhagem,
faiscavam longas flechas de sol. Um ar de sutil e aveludado circulava,
recendendo a verduras novas; aqui e além, nos ramos mais sombrios,
pássaros chilreavam de leve; e naquele simples bocado de estrada.
todo salpicado de manchas do sol, sentia-se já, sem ver, a solenidade
dos espessos arvoredos, a frescura distante das nascentes vivas,
a tristeza que cai das penedias e o repouso fidalgo das
quintas de verão..."
"Cruges não respondeu, mudo, enlevado, recebendo como uma impressão
religiosa de todo aquele esplendor sombrio de arvoredo, dos altos
fragosos da serra entrevistos um instante lá em cima nas nuvens,
desse aroma que ele sorvia deliciosamente, e do sussurro doce
de águas descendo para os vales..."
"E foi o que mais lhe agradou - este maciço e silencioso palácio sem florões
e sem torres, patriarcalmente assentado entre o casario da vila, com as suas
belas janelas manuelinas que lhe fazem um nobre semblante real, o vale
aos pés, frondoso e fresco, e no alto as duas chaminés colossais, disformes,
resumindo tudo, como se essa residência fosse toda ela uma cozinha
talhada às proporções de uma gula de rei que cada dia come todo um reino..."
"De vez em quando aparecia um bocado da serra, com a sua muralha de ameias correndo sobre as penedias, ou via-se o castelo da Pena, solitário lá no alto. E por toda a parte, o luminoso ar de de abril punha a doçura de seu veludo."
"- De resto, filho - continuou Alencar -, tudo em Sintra é divino.
Não há cantinho que não seja um poema... Olha, ali tens tu,
por exemplo, aquela linda florzinha azul... - e, ternamente, apanhou-a. "
"- Com mil raios! - exclamou de repente o Cruges, saltando de dentro da manta,
com um berro que emudeceu o poeta, fez voltar Carlos na almofada,
assustou o trintanário.
O break parara; todos o olhavam suspensos; e no vasto silêncio
de charneca, sob a paz do luar, Cruges, sucumbido, exclamou:
- Esqueceram-me as queijadas!"
(Todos os trechos que servem de legenda para as fotos desse post foram retirados do Capítulo VIII do livro Os Maias, de Eça de Queiroz. Recomendo a leitura, não só pelo excelente enredo criado pelo autor, mas pelo retrato que ele faz da sociedade portuguesa da época. Pra quem tem preguiça de ler, a Rede Globo fez uma minissérie maravilhosa sobre o livro, muito fiel ao texto. Vale a pena assistir.)









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